Brasília

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  • Brasília retrata um pouco da arquitetura humana da cidade-monumento a partir das utopias vividas hoje por seus habitantes. Nossa Brasília é um rico mosaico de novas e tradicionais socialidades. Elas se expressam em diversas formas de relacionar-se com outros humanos e com o ambiente, de interagir com o espaço e de produzir cultura e política. São essas experiências que nos constituem e que ajudam a reinventar cotidianamente a cidade. Afinal, como toda utopia, Brasília é devir.

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  • Considerado uma alusão à foice e o martelo, o pedestal onde Juscelino Kubitschek foi imortalizado acenando para a cidade enfrentou polêmica do projeto à inauguração, em 1981. Seu autor, Niemeyer, notório comunista, sempre sustentou que não se tratava de uma referência ao famoso símbolo e sim a uma mão em concha.

    JK, por sua vez, foi conhecido desenvolvimentista. Acreditava que a industrialização, com a intervenção do Estado e impulsionada pela entrada de capital multinacional, seria a base do crescimento econômico, tendo apostado especialmente na indústria automobilística. O desenvolvimento social viria a seguir.

     

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  • No Plano de Metas de seu governo, JK calculou que o Brasil se desenvolveria “50 anos em 5”. No entanto, colocado em ação, ele não gerou os frutos prometidos, produziu uma dívida externa que drenaria as riquezas e estrangularia os investimentos públicos do Brasil pelas quatro décadas seguintes. Quanto à ideia de que o progresso viria sobre quatro rodas, que se materializou numa cidade de largas avenidas, sem metrô e de poucos pedestres, além de ter se provado social e ecologicamente equivocada, não impulsionou a criação de empresas nacionais e sim de filiais de empresas estrangeiras no Brasil.

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  •  Miguel Terrão, um entre os milhares de migrantes nordestinos que vieram construir Brasília, foi um dos responsáveis por plantar o buriti que deu nome e personalidade à praça em frente ao palácio do governo do Distrito Federal. Embora os nordestinos tenham grande representatividade cultural e numérica entre os candangos, ao contrário do que se imagina, eles não constituíam sua maioria. Na época da construção, a migração para Brasília foi encabeçada por goianos e, em seguida, por mineiros.

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  • O convite feito ao Brasil inteiro para que acreditasse no sonho da nova capital despertou a vontade de muita gente em vir compor com sua força de trabalho. Porém, desde o início, o ideal igualitário do urbanismo de Lúcio Costa foi aplicado quase somente ao funcionalismo público e aos trabalhadores ditos graduados. A cidade administrativa não previa acomodação para os operários e trabalhadores domésticos, que eram alojados seguindo a lógica das empreiteiras ou em áreas não urbanizadas. Alguns acampamentos de obras e coletividades espontâneas se estabeleceram em comunidades e vilas, mas poucas entre elas permaneceram onde surgiram, como é o caso do Paranoá, da Candangolândia, da Vila Telebrasília e da Vila Planalto.

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  • Mentor ideológico do modernismo de nossos fundadores, o arquiteto francês Le Corbusier era fascinado por aviões e costumava incluir uma vista aérea do conjunto urbano sempre que apresentava desenhos perspectivos. Lúcio Costa, grande expoente do modernismo brasileiro e idealizador da planta de Brasília, foi amplamente inspirado pelo arquiteto francês, mas nega que o Plano Piloto tenha a forma de um avião, como ficou convencionado se pensar. Segundo ele, o traçado fundamental de Brasília representa uma borboleta, uma homenagem a seu amor, Juliete Modesto Guimarães, a Leleta.

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  • Uma de suas obras favoritas, o Congresso Nacional, exemplifica os valores que Niemeyer pretendeu materializar na cidade, entre eles o despojamento minimalista e a inovação estrutural. A simplicidade de seus traços contrasta com a complexidade da engenharia da obra, que já podia ser apreciada ainda na estrutura.
    Sua arquitetura também tinha um componente ético admirável. Ao planejar os prédios dos Três Poderes sem grades, ele queria aproximar a população dos centros de poder, contrariando um dos desígnios expressos nos projetos de interiorização da capital que datam do Brasil Colônia: isolar a administração pública do povo em nome da governabilidade.

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  • A Catedral foi o primeiro monumento construído em Brasília. Ela exemplifica com louvor a paradoxal leveza do concreto armado, considerado por Niemeyer o material por excelência da atualidade.

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  • Inaugurada no ano de sua morte, aos 104 anos, a última obra projetada por Niemeyer foi a torre digital que homenageia nosso bioma: Flor do Cerrado. Infelizmente, nossos pais fundadores se atentaram tarde para sua riqueza. A concretização do projeto desenvolvimentista vinculado à mudança da capital para o interior foi justamente o que engatilhou a grave ameaça que hoje paira sobre o Cerrado, considerado hotspot, isto é, uma área de elevada biodiversidade ameaçada no mais alto grau.

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  • Jogo de dentro, jogo de fora. Ao longo de toda a história de constituição do Brasil em Estado-nação, o que hoje é o DF realmente foi território indígena, frequentado possivelmente por kayapós, acroás, xacriabás, goiases (ou goiás), akwén (uma nação que provavelmente deu origem aos xavantes, xerentes e krixás) e avá-canoeiros. Se atualmente os índios quase não se fazem presentes na cidade é porque foram caçados, desterritorializados e relegados ao passado no nosso imaginário.

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  • Na concepção de Niemeyer, suas obras são esculturas ao ar livre, a serem experimentadas em espaço aberto, em escala monumental e tendo o céu como quadro. Hoje sua arte esculpida em concreto pode ser apropriada como superfície de criação por outros artistas. A foto mostra uma intervenção em 3D no Museu Nacional, local que revitalizou a Esplanada como centro de convivência e arte acessível a todos. O museu leva o nome do mais notório militante brasiliense pela democracia, Honestino Guimarães, que lutou clandestinamente contra a ditadura por cinco anos, passou três anos como preso político e foi declarado desaparecido em 1976.

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  • O protagonismo do espaço na vida de quem transita a pé pelo Plano Piloto pode traduzir-se em solidão ou solitude. Deslocar-se por suas amplas praças ou áreas verdes pode suscitar uma sensação de isolamento. Porém, experimentado como oportunidade de contemplação, com o horizonte sempre presente, o mesmo flanar nos leva a desacelerar nossa percepção de tempo e a nos colocar em escala diante da imensidão do Planalto Central.

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  • Muda a cidade, mudam as formas de relacionar-nos com o espaço. Donaldo B. De Souza e João L. Ungarelli praticam parkour na superquadra modelo, a SQS 308. Trata-se de um esporte e uma arte. O desafio do praticante é percorrer trajetos utilizando obstáculos naturais ou urbanos da forma mais eficiente e criativa possível só com a tecnologia do corpo.

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  • O Grupo de Capoeira Sol Nascente, da Ceilândia, promove uma roda em frente ao Museu Nacional, no aniversário de 52 anos de Brasília. Além de formar capoeiristas de alto nível, o grupo também se envolve em projetos educativos voltados para o estímulo da tradição oral de matriz africana e para a discussão de questões étnico-raciais.

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  • No intuito de transformar a reputação do mal-afamado Eixo Rodoviário de “Eixão da Morte” em “Eixão do Lazer”, os 17 km de via expressa que ligam as Asas ficam fechados para veículos automotores durante domingos e feriados desde 1991.

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  • O Parque Ecológico da Ermida Dom Bosco, no final do Lago Sul, é uma área  de preservação pública e gratuita de preservação que conta com 131 hectares de fauna e flora do cerrado, trilhas para caminhada, local próprio para banho e um relevo ideal para aventuras sobre rodinhas. Também ostenta um monumento de Niemeyer ao padroeiro Dom Bosco, monge italiano do século XIX, cuja profecia da emergência de uma terra de abundância, onde hoje está Brasília, foi eleita marco utópico da capital por JK. Com maior consciência ecológica que nossos antepassados, percebemos que uma civilização utópica não surgirá da conquista da natureza, mas de nossa capacidade de nos reconhecermos como parte dela, em simetria.

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  • Em contradição com a visão de cidade igualitária que estava no cerne da urbanização das superquadras, a ocupação dos terrenos próximos ao Lago Paranoá seria privilégio de poucos. O Clube do Golfe é uma das áreas nobres cedidas a empreendimentos dedicados à elite que compõem o plano original de Lúcio Costa.

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  • O Lago Paranoá, que abraça o Plano Piloto, foi concebido para amenizar os efeitos da seca na cidade. Para formá-lo, foi feito o barramento do rio Paranoá e seus tributários, os rios Torto e Bananal, além dos riachos Fundo, Guará e Gama, com imensuráveis impactos ambientais. O lago acabou por não cumprir sua função de espelho d’água, pois as correntes de ventos na região sopram à tangente do Plano Piloto, levando consigo a umidade.

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  • No plano de ocupação territorial original, as casas na orla do lago já era destinadas à alta elite, embora devessem deixar um corredor para a circulação de pedestres e livre acesso ao lago. A maioria das áreas e acesso públicos atualmente foram apropriadas.

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  • A criação de um DF de múltiplos centros teria sido uma ideia viável para garantir um estilo de vida mais interiorano para toda sua população, caso não tivesse obedecido a critérios e interesses tão excludentes. Da forma em que foram implantadas, nada indicaria que das cidades satélites nasceriam de fato centros urbanos em seu sentido pleno. Ainda hoje, muitas das satélites de Brasília dependem profundamente do Plano Piloto, pois carecem de infraestrutura pública adequada e de empregos locais.

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  • Marcelo de Oliveira Arruda, da rádio comunitária Utopia FM, de Planaltina, acredita na força da comunicação como instrumento desencadeador de novas realidades. A rádio se propõe a discutir criticamente temas de interesse da cidade e a valorizar a cultura local. Mesmo sendo considerada uma das satélites mais violentas do DF, Planaltina tem um lado profundamente acolhedor. A vida pulsa em suas ruas centenárias, em suas vizinhanças, praças, comércios e quadras de esporte, numa socialidade própria de uma cidade erguida nos moldes tradicionais.

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  • Foi garimpando suas raízes e inaugurando novas tradições, com referências locais, que Brasília inventou para si um carnaval popular. Hoje, os brasilienses botam seus blocos na rua, ocupando até mesmo as normalmente plácidas vias do Plano Piloto.
    O Pacotão, nasceu de efervescências locais, da necessidade de protestar contra um pacote de leis que visava alterar as regras das eleições em 1977. O bloco já percorre a W3 na contramão há 36 anos, sempre lançando mão da sátira para dar voz a demandas políticas.

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  • A Praça dos Orixás, também conhecida como Prainha, é o local onde o povo de santo de Brasília estabeleceu a já tradicional Festa de Iemanjá, indiscutivelmente o réveillon mais democrático de Brasília. Trata-se de um dos casos mais bem sucedidos de reinvenção de uma tradição vinculada à ocupação de um espaço público da cidade. Em termos antropológicos, pode-se dizer que a festa também é um lugar, um espaço-tempo construído para colocar em evidência nossos sentidos identitários. Detentores de mitos e arquétipos plurais, o povo de santo costuma receber de braços abertos pessoas das mais diversas origens e afetividades.

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  • A Colônia Agrícola Águas Claras faz parte dos cinturões de áreas rurais (ou verdes) projetadas para circundar os múltiplos centros urbanos e garantir que cada cidade tivesse seu abastecimento de verduras e hortaliças. Em pleno processo de conurbação, união desordenada das malhas urbanas de diferentes cidades, tais áreas estão rapidamente dando lugar a novos condomínios e até a cidades inteiras. Grande parte das terras cultivadas na Colônia já foram vendidas para empreiteiras do maior canteiro de obras da construção civil do Brasil, Águas Claras. Típica cidade dormitório de classe média alta, ela conta com o maior número de prédios por metro quadrado em relação ao número de habitantes de todo o Brasil e nenhuma escola pública.

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  • Nilda Ribeiro Gomes é de uma geração de filhas de agricultores de Minas Gerais que vieram se instalar em Brasília nos anos 80 para estudar e trabalhar em serviços domésticos, estimulados por parentes que já haviam migrado para cá. De sua chegada, se recorda da arquitetura, que a encantou, e de um grande estranhamento: as imensas distâncias que precisava percorrer diariamente. “Eu tinha que acordar às 4:30 para chegar às 8:00 na Asa Sul!”. Dois anos depois, entretanto, conseguiu comprar a posse de uma bela chácara no Combinado Agro-urbano de Brasília, perto do Gama. Hoje Nilda se esforça para voltar a viver do cultivo da terra.

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  • O agrônomo e restaurador Roberto Furquim migrou para Brasília de sua Bahia nativa em 1978 para tratar de uma paralisia. Não encontrou a cura, mas conseguiu realizar seu sonho de trabalhar no que gosta e fundar uma associação de preservação ambiental no Córrego do Urubu, onde instalou-se ainda em 1989, quando ali só havia duas casas.

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  • “Nossas águas são sagradas”, esse é o princípio que rege a luta, de mais de 15 anos, dos moradores da microbacia do Córrego do Urubu pela preservação da exuberante paisagem local, que inclui áreas de mata nativa e rica biodiversidade. Esta é uma das microbacias que compõem a Serrinha do Paranoá, berço de inúmeras nascentes e responsável por contribuir com 40% da água limpa que deságua no Lago Paranoá, sendo uma área prioritária para a conservação ambiental no DF.

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  • Especialmente a partir dos anos 1990, a ocupação do solo no DF tende à expansão horizontal, à privatização e à fragmentação, desviando-se das metas descritas de seu projeto de urbanismo original. A insatisfação com a vida em apartamentos leva parte da classe média e alta a uma fuga para condomínios privados, acentuando esse processo. Em muitos casos, tais empreendimentos foram concretizados por meio de manobras ilegais, como a grilagem de terras públicas ou o parcelamento de lotes. Na foto, ceremonia de casamento no condomínio Ouro Vermelho.

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  • A Brasília que parece despontar no horizonte é uma cidade em que a rua não é só asfalto, é sala de estar, é palco, é caminho. Que ela escute nossos clamores!

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  • Desde sua concepção, a Universidade de Brasília é um espaço de utopias críticas. Arejada como seu campus, ela nasceu aberta a ousadias do livre pensar e marcada por pequenas revoluções. Uma das mais recentes foi a instituição do sistema de cotas no vestibular, em 2004. O que dez anos atrás parecia impensável aconteceu: o perfil dos estudantes da Universidade se transformou, enriquecendo-a com seus saberes plurais. Outra pequena revolução pela qual a universidade tem passado na última década é sua aproximação geográfica e simbólica com a realidade do DF e de toda a região. Na foto, o engenheiro agrônomo Tamiel Jacobson ministra uma aula de ecologia de agrossistemas na Faculdade de Planaltina para uma turma que, segundo conta, é composta em 80% por kalungas.

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  • O Plano Piloto se expande nos anos 90 com o Novo Plano Diretor que cria o Sudoeste e o Noroeste e gera a descaracterização tanto do plano original quanto de povoamentos já consolidados. Um deles é a Comunidade indígena Bananal. Conhecida como Santuário dos Pajés, a comunidade nasceu em 1957 quando pioneiros tapuyas/fulni-ôs chegaram a Brasília para trabalhar em suas obras. Elegeram um local na mata onde havia um cemitério indígena para reunir-se e realizar seus rituais nos períodos de descanso, local onde seus descendentes acabaram por estabelecer-se. Segundo a lei brasileira, teriam direito a pleitear a demarcação do território à FUNAI e assim o fizeram.

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  • A Marcha das Vadias ocupa as ruas com a força de suas propostas feministas em 17 de junho de 2011. O coletivo de organização simétrica faz parte de um movimento internacional de mulheres nascido em Toronto, Canadá, no início daquele ano, que se uniu para protestar contra a declaração de um policial de que a solução para evitar estupros na universidade seria as mulheres parassem de se vestir como vadias.

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  • Em contraste com o que ocorre nas satélites, onde a bicicleta tem tradição como alternativa de transporte, até muito pouco tempo, ser ciclista no Plano Piloto significava ser esportista. Hoje, com o estímulo de ONGs, movimentos sociais e com a construção de ciclovias, Brasília vive o que esperamos ser um renascimento do uso da bicicleta como veículo.Em paralelo com a luta do Movimento Passe Livre pelo pleno acesso à cidade através de um transporte público, gratuito e de qualidade, a Bicicletaria promove o ciclismo como cultura de autonomia. Em ações que estimulam o partilhar tanto de saberes mecânicos quanto de vivências sobre duas rodas, buscam criar novos percursos imaginários para atingir sua meta: “um mundo cujas engrenagens movamos juntos”.

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  • O Exército de Palhaces Autônomos Rebeldes e Insurgentes protesta contra a aprovação do Novo Código Florestal de 2012, que anistiou grandes desmatadores e permitiu deixar desprotegidas áreas de importância central para o equilíbrio ecológico de diversas áreas no Brasil.

    O ativismo é quase uma consequência de ser palhace, assim mesmo, com “e”, sem distinção de gênero. Afinal, não existe melhor crítico do rei que um bobo da corte que se desprendeu da corte para juntar-se a outros bobos. A insurgência da imaginação e a subversão jocosa são as armas daqueles que procuram fazer brotar coerência do absurdo.

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  • A conquista dos povos e territórios no coração do País e a segregação do poder nacional das massas estiveram no cerne do projeto de interiorização da capital desde o Brasil Colônia. Porém, como a própria história indica, se o poder escapa do povo, uma hora o povo o alcança. Por morar em local simbolicamente tão privilegiado, as vozes da população do DF e do Entorno têm grande alcance. Para quem mora na capital, todo dia precisa ser dia de luta por um Brasil plural, laico e democrático. Juntos, temos mais de dois milhões de corações,cada um com sua utopia.

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