The Urs of Kawajah Moin Uddin Chishti

 

Êxtase e tolerância em nome de Alá

 

Tendo migrado da Pérsia para a Índia e vivido como dervixe itinerante por mais de vinte anos, um dia Chishti recebeu em sonho uma missão de seu mestre: parar de virar mundo para colocar em prática seus ensinamentos de amor a Alá e ao próximo. Escolheu o majestoso estado de Rajastão, onde reconciliou inimigos centenários, os muçulmanos e hindus, e ajudou a aliviar o sofrimento dos desvalidos, enfrentando o poder hegemônico quando necessário. Tornou-se o santo sufi mais querido da Índia, uma espécie de Gandhi muçulmano de sua época.

O Urs é uma celebração de casamento, da união final e total de um santo com seu o grande Amado, Alá. A morte de Kwajah Moin Uddin Chishti, em 1229, pode não ser notícia fresca, mas o carisma do “mensageiro de Alá no Hindustão” continua tendo o poder de unir destinos que normalmente não se cruzariam. O festival de morte de Chishti é tudo que não se imagina de um festival muçulmano. São ondas de faquires, travestis, intelectuais, mendigos e mercadores convergindo entre brados e desmaios à mesquita central de Ajmer. As mulheres podem ser vistas todas cobertas de chaddor, como as afegãs sob o sistema do Taleban, ou de saris estampados e barriguinhas de fora. Ora aquele aglomerado plural sobe a ladeira entre as danças e vestidos esvoaçantes dos travestis, ora reflete a personalidade mais sisuda e militante dos ascetas.

Chishti foi um fundamentalista muçulmano, mas promoveu uma revolução de valores com sua interpretação esotérica da mensagem de Maomé. Na sua versão do Alcorão, os fundamentos do Islã nada têm de belicosos. Para ele, estão nos desígnios de Alá que os seres humanos conquistem a perfeição baseando-se sempre no amor a Deus e tolerância entre todos os seres humanos, sejam eles hindus, muçulmanos, cristãos, desvalidos ou poderosos. A conquista deve ser interna, através do controle do ego ou nafs e não uma vitória externa, sobre outras pessoas ou povos.

Os devotos de Chishti comemoram de acordo com a tradição, na ocasião da sua morte, mas o santo é louvado muito mais pelas suas realizações em vida. É por isso que, em vez de lamentos fúnebres, se ouvem cantores quase em êxtase narrando os legados de Moin Uddin ao som da cativante melodia do harmonium, uma espécie de sanfona de mesa, e a percussão engajada da tabla indiana. O santo foi patrono do qawwali, música devocional que promove transmissão de conhecimento místico. Por isso, as rodas rituais são sempre encabeçadas por silenciosos mestres sufis, mas os músicos são as peças centrais: quanto mais calorosa forem suas performances, mais pessoas entram em transe extático.

Mas o conhecimento não é somente cantado, é literalmente revivido. Abluções e preces diárias obrigatórias a todos os muçulmanos, procissões fervorosas e a lavagem do mausoléu de mármore do santo, um ritual de purificação muito parecido com nossa lavagem das escadarias do Senhor do Bonfim, complementam os qawwalis na semana de programação oficial. São os encontros fora do circuito oficial, entretanto, que realmente proporcionam um termômetro da herança de amor e misticismo deixada pelo santo. Inspirados por seu exemplo, devotos leigos doam aos pobres e doentes, literalmente enchendo caldeirões comunitários de comida e dinheiro, que serão distribuídos a todos que necessitarem, sem distinção de religião.

O estilo de vida do santo tampouco foi esquecido. Entre túmulos e flores, mestres reencontram seus discípulos para promover a transmissão oral da doutrina esotérica do Islã. Centenas de faquires acomodam-se no cemitério atrás da mesquita, tomando chá e fumando cachimbos de haxixe. Não se sabe se o santo era adepto deste hábito ou não, mas outros exemplos são certamente tirados da vida do santo. A maioria fez votos de pobreza, vive em constante peregrinação entre túmulos sagrados e mantêm-se com doações, redistribuídas prontamente entre todos os presentes. Ao contrário do que se imagina, poucos são aqueles que ainda praticam mortificações radicais como deitar em camas de pregos, mas práticas como fixar o olhar no sol por horas a fio ainda têm bastante entusiastas.

Há nove séculos o santo deixou seu corpo, mas sua mensagem está longe de ser esquecida. Com um crescente interesse internacional pelo Sufismo, seu ensinamento de compaixão e autoconhecimento tem ultrapassado fronteiras, reintroduzindo o Islã esotérico como um caminho de tolerância num mundo cansado de testemunhar horrores promovidos em nome do Islã.

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