Brasília.

Com ângulos certeiros no torto cerrado, os pais fundadores de Brasília traçaram juntos nosso futuro em comum. Cada qual com sua própria quimera, encravariam no íntimo de um país-imensidão sua utopia de cidade moderna.

 A vida em Brasília, ela própria, seria obra-prima. Trabalhadores e governantes embarcariam no mesmo avião, o Plano Piloto, onde compartilhariam escolas, clubes e comércios, cruzariam motorizados suas largas avenidas margeadas de verde e vivenciariam a arte no seu cotidiano, ao ar livre.

 Gente de todo o Brasil constituiu lar entre seu solo vermelho e o manto de liberdade do céu do Planalto Central. Vieram sonhados, cada um à sua maneira.

 O sonho de uns era concreto. Viveriam nos apartamentos funcionais de linhas austeras, térreo livre e horizonte garantido. Criariam raízes onde acreditavam nada haver. Outros enxergariam seu futuro em cores nativas. Suas brasílias utopias não se extinguiriam nos limites retângulos do Distrito Federal, nem no mito de uma civilização erguida num vácuo simbólico.

 Tantos foram aqueles seduzidos por tais sonhos que a cidade inchou. Projetado para acolher 600 mil habitantes em 2000, na virada do milênio, o Distrito Federal já ultrapassava a marca dos 2 milhões, e, uma década mais tarde, já contava com outro meio milhão.

 A especulação imobiliária expulsou trabalhadores do Plano Piloto e a opção pelo transporte rodoviário se provou excludente e ineficaz. A ocupação da terra no DF seguiu desordenada, desafiando o princípio de seu Plano Diretor original.

Felizmente, nossa veia utópica também transbordou os desígnios dos fundadores da cidade.

 

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