Iogues Dissidentes.text

O yoga quase todo mundo conhece. É um sistema de harmonização corpo-mente muito popular nas grandes cidades do mundo inteiro. Já os herdeiros contemporâneos desse conhecimento milenar, os sadhus, são muito pouco conhecidos, embora tenham um lugar cativo no nosso imaginário. Quem nunca ouviu falar de mestres indianos que vivem meditando no topo de montanhas nevadas, prontos para dar lições de vida àqueles que se aventuram a procurá-los? Os sadhus são os mais radicais entre tais iogues.

 

Eles são notórios praticantes de disciplinas como comer só uma vez por dia e vestir pouca ou nenhuma roupa nos rigorosos invernos do Himalaia, práticas comuns entre renunciantes, aqueles que rejeitam o modo de vida de mães e pais de família. Mas os sadhus, em especial aqueles das linhagens naga e aghori, levam esse estilo de vida um passo adiante, desafiam qualquer limite moral e físico imposto a seus corpos. Podem fazer o voto de levantar o braço ou manter-se em pé por décadas a fio, brincar com o pênis em público, viver em campos de cremação e ingerir ritualmente carne humana. A ideia é tomar um atalho para a iluminação, emancipar-se do ciclo de vidas e mortes que caracteriza o mundo para os hindus. Para os iogues dissidentes, toda transgressão é bem-vinda, pois vivem no próprio corpo o objetivo de transcender toda dualidade, em última instância, entre ser mortal e imortal.

 

Segundo o principal interlocutor desse trabalho, Maharaj Amar Bharti, naga sadhu que mantém o braço elevado há 37 anos, a era atual de  kali yuga é de progressão exponencial dos ritmos cósmicos de dissolução da unicidade primordial, um período de crescente materialidade, sensorialidade e deslizamento de sentidos. Hoje o caminho dos sadhus se dá no contato direto com o mundo da vida, por meio de uma pedagogia performática e de uma técnica de (in)disciplinamento que desconstrói as dualidades de maneira jocosa e relativista. Por isso, o sagrado é acessível aos sentidos, está aparente no mundo manifestado, em todas suas cores e formas, em especial no corpo empoderado do asceta virtuose. E também na fotografia dele. Isto porque a fotografia foi incorporada à tradição dos sadhus como uma tecnologia de darshan, empoderamento através da visão. Imagens produzidas, editadas e distribuídas sob os auspícios dos iogues, caso das imagens que apresentamos aqui, carregam consigo uma narrativa de si, sua intenção e, quiçá, a eficácia de sua presença.

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