O Santuario Não Se Move!

  • Esse ensaio é dedicado ao Pajé Santxié que, no dia 8 de Junho 2014, partiu para encontrar o grande Tupã.

    Conhecida como Santuário dos Pajés, a comunidade indígena Bananal nasceu em 1957, quando pioneiros tapuyas/fulni-ôs aqui chegaram para trabalhar nas obras de Brasília. Elegeram um local na mata onde havia um cemitério indígena para reunir-se e realizar seus rituais nos períodos de descanso, local onde seus descendentes acabaram por se estabelecer. Segundo a lei brasileira, teriam direito a pleitear a demarcação do território à FUNAI e assim o fizeram.

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  • Por não se adequarem ao estereótipo de indígena silvícola, caçador e coletor em remotas terras ancestrais, a identidade de índios nas cidades lhes é frequentemente negada – e com ela a posse coletiva das terras. Nas palavras de Awamirim Tupinambá: “Desde o início da colonização, a tática da invisibilidade foi usada para roubar as terras. Dizem que aqui não tem índio, não!”

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  • O Santuário dos Pajés é a única área do Distrito Federal atualmente ocupada por índios, mas o que hoje é Brasília sempre foi terra de múltiplas raízes e rotas que se entrecruzaram. Quando o Estado-nação brasileiro fincou por aqui seus símbolos, outras coletividades já mantinham referências culturais e afetivas por estas terras, destacando-se aí diferentes etnias indígenas.

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  • Desde o início da construção de Brasília, índios que vieram trabalhar nas obras se retiravam nas horas de descanso para fazer suas práticas numa área da então Fazenda Bananal. Hoje a maioria dos habitantes é fulni-ô, mas concorda em manter a característica original de aldeia pluriétnica e ponto de encontro de todos os índios no Brasil.

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  • Propagandeado como o primeiro bairro ecológico do Brasil, o Noroeste seria “perfeito como a vida deve ser”, embora o bairro tenha sido projetado em cima de um importante aquífero de água mineral, ao lado do Parque Nacional de Brasília e apenas quatro hectares tenham sido reservados aos índios.

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  • Após anos de luta pela demarcação da Terra Indígena, Santxiê Fulni-Ô, atual líder da comunidade, se mostra consternado. Mesmo tendo em mãos o Laudo Antropológico que confirma a tradicionalidade da terra, o pajé testemunha grande parte da área original do Santuário ser cercada e desmatada antes que o processo de demarcação possa ocorrer. Trata-se da estratégia de “fato consumado” comumente utilizada por empreiteiras Brasil afora.

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  • Towê Fulni-Ô, irmão de Santxiê, teve sua casa incendiada em 2009. Devido às frequentes ameaças de morte que sofreu, decidiu mudar-se para a aldeia Fulni-Ô em Pernambuco.

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  • O estado de constante conflito também levou Tqxa Tapuya a mandar sua filha de volta à aldeia, longe da cidade.

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  • Parte da terceira geração a resistir na área, Xoá Fulni-Ô quis ser retratado com uma muda na mão em frente à casa de reza, local das práticas rituais da comunidade.

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  • Com a presença cúmplice da Polícia Militar e contando com seguranças portando tasers, as construtoras destruíram o cerrado nativo e suas nascentes, impermeabilizaram o solo em zonas de recarga hídrica e derrubaram árvores tombadas como patrimônio natural que foram plantadas pelos antepassados dos índios, eliminando assim evidências antropológicas de sua ocupação.

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  • A empresa de segurança Snake vigia a cerca erguida pela Emplavi fechando o único acesso motorizado ao Santuário, no dia 12 de outubro de 2011.

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  • O pajé Santxiê convoca a sociedade civil a se mobilizar em favor do Santuário dos Pajés antes de um ritual do Toré ecumênico.

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  • Ativista inicia um ato de derrubada das cercas levantadas pela empreiteira Brasal.

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  • Fortalecidos pela solidariedade popular,         os índios colocam em prática medidas emergenciais de resistência, como impedir       a passagem de tratores, enquanto esperam    o resultado da batalha jurídica.

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  • Major da Polícia Militar negocia a devolução da chave de um trator subtraída pelos indígenas para tentar conter o desmatamento.

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  • Após ter derrubado as cercas e tapumes instalados por uma construtora, o movimento decide coletivamente as próximas ações a serem tomadas.

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  • Ativistas do movimento questionam a inércia da polícia no combate à ocupação e à devastação de uma área constante no Laudo Antropológico como sendo parte da terra indígena. São confrontados com esquivas discursivas enquanto o processo de criminalização do movimento social continou seu curso.

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  • Policiais militares prendem dois manifestantes apenas por terem filmado um trator (no fundo) devastando uma nova área dentro do perímetro do Santuário. Não há no Brasil lei que embase tal detenção.

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  • Awamirim e Santxiê param a tempo um trator que invadiu o Santuário para entulhar a vegetação derrubada nas imediações.

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  • Os responsáveis pelas obras das empreiteiras Emplavi e João Fortes se unem para demandar da polícia que faça ainda mais pressão sobre os manifestantes.

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  • Embora policiais militares não tenham o direito de reprimir indígenas, vários dentre eles sofreram violência direta ou simbólica das forças coercitivas do Estado.

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  • No auge do conflito, guerreiros fulni-ôs da aldeia de Pernambuco vieram ao Santuário para unir-se à luta.

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  • Em entrevista televisiva, um diretor da Brasal nega a ilegalidade das atividades da empreiteira embora a área em litígio tenha sido cercada e devastada antes de haver uma decisão judicial definitiva sobre o processo.

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  • Índios inspecionam enorme área devastada por empreiteira em apenas duas horas no dia 2 de novembro de 2011.

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  • Como estratégia de luta, apoiadores replantam a mata nativa em áreas              recém-devastadas.

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  • Crianças também participaram de atos como o do replantio de 21 de outubro de 2011.

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  • Nos intervalos entre as batalhas, o Santuário promoveu atos artísticos e religiosos para  sensibilizar a população do D.F. para a causa. Brasília finalmente descobria seus Índios.

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    Durante os meses de outubro, novembro e dezembro de 2011, no auge da ação das empreiteiras, os ativistas acamparam no Santuário para manter vigília. Awamirim foi o encarregado de deixar os apoiadores sempre a par de todo o andamento judicial do processo.

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    Awamirim mostra no mapa as áreas tomadas pelas empreiteiras que constam no Laudo Antropológico como Indígenas.

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  • Awamirim aponta uma nova área do Santuário ilegalmente desmatada.

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  • No dia seguinte à devastação de uma grande área, apoiadores montam sobre os montes de vegetação derrubada para exigir a atenção do Governo Federal para a demarcação da Terra Indígena.

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  • Em um dos momentos mais acirrados de conflito, os apoiadores tentam derrubar a torre de vigilância montada em terreno ilegalmente ocupado e devastado.

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  • Momento de tensão entre                             apoiadores e seguranças.

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  • Ao longo de todo processo de ocupação da terra, as empreiteiras conseguiram mobilizar uma força policial desmesurada para reprimir manifestantes, chegando a oitocentas pessoas em um só dia e ultrapassando de longe o número de índios e apoiadores. Em um momento icônico dessa desproporção, os apoiadores foram cercados por uma parede de policiais armados por mais de uma hora.

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  • Aritana manda a polícia “voltar para casa”.

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  • Feqia e Xleqaq-tuá se preparam                    para a batalha do dia.

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  • Índios da comunidade bloqueiam o trânsito    do Eixo Monumental em frente ao Palácio do governador.

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  • Membros da comunidade requerem um encontro com o governador. Depois de várias horas de muita tensão, a demanda deles foi negada.

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  • O Palácio do Buriti sediava uma exposição retratando índios enquanto os de carne e osso eram impedidos de entrar.

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  • “Ao contrário do Memorial dos Povos Indígenas, pouco aparente, sem destaque no cenário urbano, o Memorial JK é avistado de longe, tem fotos, imagens, uma memória viva. Por outro lado, o Memorial dos Povos Indígenas sugere a memória do colonizado, imperceptível, morta”.

    Rafael Moreira, antropólogo.

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  • Em outubro de 2011, o salão wimóveis oferecia apartamentos na área em litígio a seu público-alvo: a família branca de classe alta. Com o preço médio de dez mil reais o metro quadrado, o Noroeste estava entre os quatro bairros mais caros do Brasil.

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  • Como se não bastasse a tragédia socioambiental que foi a construção do Noroeste, atualmente ele é considerado também um desastre financeiro. Em 2013, o metro quadrado do imóvel pronto havia baixado em 1500 reais em relação ao vendido na planta dois anos antes, provando que não havia demanda real para apartamentos de elite no Plano Piloto.

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