Raíssa Gorbachof

Desde cedo, Raíssa Gorbachof, ativista em direitos humanos de Belém, foi confrontada com provações que dariam um filme de Tarantino. Até conquistar seu lugar, passou a juventude sendo empurrada às margens da sociedade, numa saga de muita violência, apenas porque sua verdade, sua certeza sobre si, afrontava a ordem sexual instituída.

Raíssa Gorbachof sabe que é Raíssa, mas nasceu no corpo de Raimundo Nonato.

Quando tinha apenas três anos, testemunhou mãe e pai serem encarcerados por tráfico. Em seguida, teve alguma sorte: foi prontamente adotada por uma família muito unida de sua comunidade de Fátima. Therezinha de Jesus, sua nova mãe, provou amor incondicional à criança, a fazendo sentir segura mesmo quando começou a mostrar identificação com o universo feminino. A escola, porém, não foi nada acolhedora. Como tantas outras travestis e transexuais do Brasil, assim que veio a puberdade, ela precisou abandonar os estudos. Ali pareciam querer lhe ensinar uma única lição: de que abrir mão da masculinidade, lócus do privilégio, era um ultraje que precisava ser violentamente punido.

Mesmo assim ela ousou. Ousou ser si mesma: uma pessoa com pênis plenamente feminina. Ousou tomar as rédeas do destino de seu corpo e fazer dele fonte de expressão e de prazer. Seguiria em frente como “Deus a tinha feito”, mesmo que o único caminho que se apresentasse a ela fosse o da prostituição do mercado Ver-o-Peso. Ali também aprendeu muito sobre a transfobia1. Sentiu na pele que quem a hostilizava nas ruas não raro era quem mais a desejava entre quatro paredes. Descobriu que a ambiguidade que tornava seu corpo abjeto, segundo os padrões binários da sociedade, era justamente o que seduzia.

Assim, ainda adolescente, foi prostituída, mas continuava sonhando. Assistia ao extinto Clube do Bolinha, programa de tevê que veiculava performances de travestis, quando entreviu seu caminho. Bastaria conseguir apresentar-se no programa para deslanchar sua carreira de artista, pensou. Carisma ela sabia que tinha. Afinal, colecionava títulos de Miss Mix. Movida pela miragem da fama em paetês, percorreu três mil quilômetros de estrada, de carona com caminhoneiros, e foi instalar-se em São Paulo.

Sua quimera, porém, durou pouco. Não resistiu ao confronto com sua condição de jovenzinha travesti, sem formação e migrante na megalópole. A demanda por artistas travestis nos cabarés e nas tevês estava muito aquém do que ela esperava. A única rede que a aceitaria de braços abertos, mais uma vez, seria a das cafetinas. Os programas que precisou fazer nada tinham do glamour que tanto a encantava nas tevês. Mesmo assim, trabalhou duro na vulnerabilidade das noites paulistanas e, como era boa no metier, conseguiu ganhar dinheiro. Foi então que começou o que ela chama de sua descida aos infernos.

Segundo ela conta, com suas primeiras economias em mãos, resolveu que era o momento de conquistar o corpo que lhe correspondia. Submeteu-se às agulhas de uma bombadeira para “botar peito”, e, logo de primeira, foi contaminada pelo HIV. Deprimida, procurou consolo no crack e, uma vez instalado o vício, passou a furtar. Numa de suas tentativas, foi pega em flagrante, espancada e quase deixada por morta. Quando pensou que tinha chegado ao fundo do poço, mais estava por vir: ela foi condenada por assalto e mandada para o Carandiru. Atrás das grades foi vendida para o barão da ala onde era detida e o acesso ao crack ficou ainda mais fácil. Segurou firme por dois anos até ser solta. Foi então que teve uma reviravolta: ”me lembro que eu acendi um beque e pensei que o que eu estava fazendo com minha vida era loucura. Eu não podia continuar assim. Com a ajuda de Deus e de uma amiga que me emprestou 100 reais, voltei pra Belém para viver com minha mãe”.

NOTA 1. Utilizamos o termo transfobia para nos referir à ideologia de abjeção e exclusão de pessoas trans*, agrupando aí toda forma de travestilidade, transsexualidade e transgeneridade, mesmo que reconheçamos que cada qual tenha sua especificidade.

 

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